Danielle Pinto
O mundo não é separado entre os cegos e os não cegos. A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Nós também construímos imagens interiores”. Quem afirma isto à exaustão é Evgen Bavcar, fotógrafo, filósofo e cineasta. Nascido na Eslovênia, Bavcar ficou cego aos 12 anos de idade em dois acidentes. O olho esquerdo perdeu a visão quando perfurado por um galho de árvore. O olho direito foi afetado durante a explosão de um detonador de minas com o qual ele brincava. Em oito meses havia perdido a visão completamente. Por volta dos 17 anos, Bavcar conheceu a fotografia através de sua irmã, que lhe emprestou uma câmera fotográfica para que ele fotografasse uma menina do colégio por quem era apaixonado. Desde então, ele afirma ter descoberto uma forma de exteriorizar suas imagens interiores e comunicar-se com os outros.
Doutor em História, Filosofia e Estética pela Universidade de Sorbonne, na França, Bavcar vive em Paris e viaja o mundo, mostrando às pessoas que a imagem não precisa ser explicitamente visual. Bavcar esteve no Brasil no final do ano passado participando do congresso Arte Sem Barreiras, em Belo Horizonte. Durante a visita ao Brasil, também ministrou um workshop para um grupo do Instituo Londrinense de Cegos. Durante o workshop, mostrou que os cegos enxergam com o toque e desenvolvendo outros sentidos é possível perceber o mundo com a mesma eficiência que aquelas pessoas que empregam apenas o sentido visual. Também ensinou conceitos como sombras e horizontes para cegos de nascença. “O teu horizonte é ate onde você pode ver. Se você vê com as mãos, logo o teu horizonte é até onde você pode tocar”.
Poliglota, fala francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, esloveno e servo croata. Sempre causando polêmica por onde passa, Bavcar não se intimida diante daqueles que não admitem que um cego possa fotografar. Para a execução das suas fotos, conta com a ajuda de sua irmã e com técnicas desenvolvidas ao longo dos anos. Entre algumas características do seu trabalho, destaca-se a composição da luz em contraste com ambientes totalmente escuros.
Freqüentemente também usa a técnica de multi-exposições e procura sempre interferir em seus trabalhos. Após uma coletiva com a imprensa em Londrina, Bavcar concedeu, com exclusividade, a seguinte entrevista para a Photos&Imagens.
Photos - Primeiro eu gostaria de saber como começou a sua relação com a fotografia.
Bavcar - Eu nasci na Eslovênia, na época uma das seis repúblicas da antiga Iugoslávia. Eu ainda era criança quando chegaram à Iugoslávia as câmeras russas Zorki 6, muito baratas e freqüentemente usadas pelos laboratórios. Minha irmã comprou uma câmera dessas e eu me interessei muito. Eu nunca havia visto uma câmera em toda a minha infância e minha irmã me emprestou a dela e me mostrou como funcionava. Ela me disse onde entrava a luz, o que era diafragma, a velocidade e o tempo. Depois fui à escola e fotografei uma menina pela qual eu era apaixonado. E assim começou uma relação muito interessante com a fotografia, porém isso não é tudo. Se eu não tivesse conhecido pessoas fantásticas como o sr. Bauchem Simom, que me ensinou como as imagens eram capturadas pelo filme, e outro senhor, que me ensinou o processo de funcionamento da câmera escura, eu não teria compreendido que a fotografia não é uma propriedade exclusiva das pessoas que vêem. Mas também uma propriedade possível dos cegos.
Photos - Então após a cegueira passou a se envolver mais com a fotografia?
Bavcar - Eu nunca havia fotografado na minha vida como vidente, somente como cego. Eu nunca havia tocado em uma câmera fotográfica antes de ficar cego. Cheguei a ver algumas pessoas fotografarem, inclusive enquanto estive no hospital. Eu pensava que aquela luz que saia quando as pessoas olhavam através da câmera podia ver tudo dentro do nosso corpo. Isso por causa de uma radiografia que eu havia visto quando estive no hospital, depois do acidente com as minas.
Photos - E hoje, por que você gosta de fotografia?
Bavcar - Porque posso exprimir, exteriorizar minhas imagens interiores. Em minhas galerias interiores eu passeio sozinho. Imagens de quando morava na Eslovênia, minhas recordações, memórias, pessoas que cheguei a ver. E com a fotografia posso mostrar essas imagens interiores. É uma forma de comunicação com os outros. Sempre digo que não se trata de um prazer estético direto, mas sim, um prazer estético indireto.
Photos - Em suas fotos há o uso constante de sobreposição de imagens, por quê?
Bavcar - Porque este é o meu olhar. Eu não posso aceitar as imagens formadas pelas câmeras como elas são, mas como eu quero ver. A técnica da sobreposição significa que eu entro na imagem. Como um pintor chinês que pode interferir na paisagem que está reproduzindo, eu também posso fazê-lo nas imagens que produzo.
Photos - E qual seria o motivo pela sua preferência pela fotografia em preto-e-branco?
Bavcar - Esta preferência tem a ver com o preço do filme colorido. Na Europa o filme PB é muito mais barato que o filme em cor, por isso sempre uso PB.
Photos - Você já chegou a fotografar em cor? O que achou do resultado?
Bavcar - Já fotografei em cor, mas não gosto porque tenho alguns problemas técnicos. O preto e branco permite uma melhor expressão da luz. A fotografia colorida é um fantasma, o mundo não é colorido desta maneira, é uma ilusão. Quando vemos uma fotografia colorida, vemos apenas as diferentes ondas e não os seus nuances. Eu posso combinar em minha cabeça muito exatamente os aspectos de diferentes cores, alterando a porcentagem de cada uma de acordo com a informação que recebo.
Photos - Você tem alguma preferência em relação ao tema fotografado? Por exemplo, você prefere fotografar paisagens ou pessoas?
Bavcar - Eu gosto de fotografar os dois. Mas depende, por exemplo, a paisagem, principalmente de cidades na Europa, é muito complicada, porque a noite sempre há uma luz que não permite entrar livremente no espaço e isso interfere no processo criativo. Com a interferência desta luz na cidade também não é possível fotografar as estrelas e eu não abro mão disto, pois gosto muito.
Photos - Em todo o seu trabalho percebe-se o uso incansável da luz como ferramenta principal. Você pode falar um pouco sobre isso?
Bavcar - A luz é a origem da imagem. É a luz que mostra o mundo a Deus e com a ajuda da luz Ele pode criar depois as montanhas, árvores, pessoas e tudo isso. A luz torna possível a imagem.
Photos - Qual é o seu aproveitamento em um filme de 36 poses?
Bavcar - Eu já fico contente se uma foto estiver realmente boa, porque preciso pensar e trabalhar muito.
Photos - Como é feita a avaliação das fotos?
Bavcar - Trabalho com a descrição das imagens feita por amigos que conheço melhor. A maioria das pessoas que descreve minhas imagens fala demais em fantasmas e esconde sua verdadeira opinião, é como se usasse máscaras. Também procuro a opinião de crianças que são mais espontâneas e verdadeiras. Por exemplo, se estou fotografando uma garota e peço para o seu namorado descrever a foto, é claro que ele vai dizer que ficou tudo lindo. Essa descrição não vale para mim. Procuro por opiniões neutras.
Photos - Para fotografar você usa algum equipamento específico para deficientes visuais?
Bavcar - Não, não há nada específico. Para fotografar uso uma Leica Minilux e uma Lomo, máquina de origem russa. A única adaptação é pontos fixados na lente para o ajuste do foco, o primeiro ponto para distâncias de até 0, 5m, o segundo para 1m e o último para o infinito.
Photos - Quanto tempo você leva na produção de uma foto?
Bavcar - Algumas vezes fico meses sonhando com uma foto, imaginando como alcançar o resultado desejado.
Photos - Você nasceu na Eslovênia e hoje vive na França. Como foi esta trajetória?
Bavcar - Atualmente moro em Paris, onde trabalho como investigador do Centro Internacional de Investigação Científica. Quando saí da Eslovênia eu poderia ter ido para qualquer país da Europa, porque já falava o alemão, o italiano, espanhol e francês. Porém escolhi a França, porque Paris é uma cidade grande onde você pode viver incógnito. Paris me é interessante devido a sua tolerância pelas diferenças.
Photos - O seu trabalho já inspirou outros cegos a fotografarem? Até onde a sua fotografia já chegou?
Bavcar - Tenho conhecimento de um grupo de cegos no México. Ainda não os conheci, apenas vi as imagens produzidas. Na França também existem alguns que fotografam. Porém, grupos organizados eu só vi aqui no Brasil, no Instituto de Cegos de Londrina e em Praga, na Rússia. Também já recebi notícias que na Argentina existe uma escola neste sentido. Isso me deixa muito contente, não só pelo fato dos cegos estarem fotografando, mas por esta nova percepção que nós também temos direito à imagem e possuímos uma subjetividade imaginária e visual interior.
Photos - O que levou você a escolher a fotografia e não outra forma de expressão artística, como a música, por exemplo?
Bavcar - No Instituto de Cegos eu também recebi educação musical, entretanto, sou contra, porque existe uma imagem clichê do cego músico. É como se para os deficientes visuais fosse possível apenas tocar um instrumento musical, algo como o cego e o seu violão. Eu já toquei violino e outros instrumentos de corda, fiz harmônica, gostava muito de cantar quando era estudante. Porém hoje, só desenvolvo a música em privado.
Photos - Você sofreu influência de algum outro fotógrafo, ou admira o seu trabalho?
Bavcar - Depende, porque na fotografia existem muitas correntes. Pessoalmente gosto muito do trabalho de um inglês que se chama Shadows, que também faz as construções com a luz. Todo mundo fala de Cartier Bresson, mas eu não me interesso. Para mim ele tem somente uma estrutura muito precisa de composição de pintura que aplica à fotografia. Também aprecio muito as escolas de fotografia artística de Viena e Paris.
Photos - Esta é a primeira vez que você vem ao Brasil?
Bavcar - Não, esta já é a terceira vez, sou muito apaixonado pelo Brasil. Gosto muito deste país e do seu povo. Desta vez já estive em Belo Horizonte, participando do congresso Artes Sem Barreiras, que considero muito importante, porque abre espaços para outras percepções.
Photos - Quais são as recordações que você leva do Brasil?
Bavcar - As pessoas que conheci e os amigos que fiz. Pessoas maravilhosas como Adalto Novaes, que foi a primeira voz que me chamou na América Latina. Também tem aquela música: “Olê mulher rendeira, olê mulher renda, tu me ensina a fazer renda e eu te ensino a namorar...”, para mim é uma foto conceitual que sempre carrego em minha mente. E da culinária, gosto muito do guaraná, do leite de côco, da erva doce e do boldo. São todos esses odores fantásticos que me fazem pensar que quando estou no Brasil enxergo mais verde que na Europa. As minhas imagens interiores são sempre monocromáticas, porém, no Brasil, são monocromos com tons de verde.