Com 25 anos de carreira, Vania Toledo já
nasceu fotógrafa. Sua segunda paixão é o
teatro, tema que rende homenagens no livro Palco Paulistano
Lilian Rossetti
Você está completando 25 anos de carreira profissional. Como foi o início de tudo?
Mamãe dizia que eu já era fotógrafa desde sempre. Quando tinham os aniversários e festas lá, em Minas Gerais, ela gostava de saber de mim as descrições de tudo, porque eu sabia detalhes e mais detalhes. Pensando nisso, e nas memórias que tenho de pequenas cerimônias de enterros e velórios, que eram um grande fascínio para mim, e das quais tenho imagens muito interessantes, acho que o olhar do fotógrafo pronuncia-se desde sempre, quando você tem um olhar atento e observador para certas características de luz e iluminação. Aprendi a iluminar com Deus, com a natureza. Sou autodidata. Depois fui aprender um pouco das técnicas de iluminação artificial com o teatro, que é a minha grande paixão. Acho que nasci, de uma certa maneira, com um olhar apurado. Tanto que sou cientista social, mas sempre fotografei. Com 10 anos de idade, eu já retratava a família toda.
Você está em São Paulo há quanto tempo?
Estou aqui há 40 anos. Costumo dizer que sou mineira de nascimento e paulista de coração. São Paulo virou minha grande paixão. São Paulo me deu talvez a dimensão da pessoa que me tornei. Se eu tivesse ficado em Minas, provavelmente não seria a pessoa que sou hoje.
Você começou a fotografar quando veio para cá?
Quando entrei na faculdade, mais ou menos em 1968, arranjei um namorado, que depois se tornou meu marido, e que era apaixonado por fotografia também. Para namorar, começamos a ir num estúdio na casa da avó dele. Ele era estudante de medicina na época e também ator, apaixonado pelo teatro, e tínhamos muitos amigos nessa área. Publico um livro chamado Palco Paulistano, que é sobre fotos de teatro. São os últimos 30 anos de teatro. Tenho filmes com seis, sete peças fotografadas. Porque eu pegava um filme de 36 poses, ia ver uma peça com o Raul Cortez e fazia três, quatro fotos. Ia ver outra peça, fazia mais três, quatro imagens. Não era nada profissional. E aí comecei a fotografar muitos amigos do teatro e, com isso, a ganhar uma graninha extra. Eu era gerente de educação em São Paulo, na Editora Abril; mexia com livros didáticos. Tinha um trabalho muito diferenciado, mas nunca deixei a fotografia de lado. Nessa época, meu namorado, já então marido, foi trabalhar por três meses num hospital em Londres e eu fui e fiquei na cidade. Enquanto ele trabalhava, eu ficava pela cidade, fotografando. Nesse tempo, que chamei de meus 100 dias de decisão, vi que a fotografia era a minha grande paixão. Então, eu desci do avião fotógrafa. Pedi demissão da Editora Abril e fui numa revista oferecer meu trabalho. Lá conheci uma pessoa maravilhosa, que foi o Samuel Wainer, dono do jornal Aqui São Paulo, e eu fazia colunas de estréias e festas, com o jornalista Antonio Bivar. Em dois meses eu era editora de fotografia do jornal. Não ganhava nada, além de experiência e muito aprendizado. A partir daí eu não parei mais. Eu tomei essa decisão em 1979. Cheguei à conclusão de que, como existiam poucas fotógrafas e para largar tudo o que eu tinha e me transformar numa profissional respeitável – não tendo faculdade e nem cursos; não tendo as facilidades que hoje uma pessoa tem de contar com um aprendizado anterior, de já começar sabendo quase tudo –, resolvi que teria que ser uma das melhores ou a melhor. Comecei a trabalhar de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, sábado e domingo. Fazia de tudo e não dizia não a nada. Nada. Então, aprendi muito nessa época. Aprendi no peito e na raça, na boa vontade e nunca dizendo não.
Era uma época que não dava para errar, não?
Eu anotava num caderninho erros e acertos. Conseguia fotos maravilhosas e outras horrorosas e ficava desesperada. Não tinham técnicas de Photoshop, papéis para melhorar a foto. A gente tinha que acertar mesmo. Não havia muita opção. No máximo, na dúvida, se fazia dois filmes. Um fotometrado e outro com flash, porque assim não havia margem de erro. E eu tinha uma vitalidade! – talvez hoje ainda tenha um pouco –; talvez pela necessidade e pressa de dar certo. Porque você não pode mudar de profissão aos 30 anos de idade, num país chamado Brasil, e para uma profissão muito diferente da que eu exercia. Por isso, eu tinha pressa de dar certo. Trabalhei muito, muito mesmo; num volume tal, que eu pude parar para olhar meu trabalho depois de dez anos. Um ritmo alucinante! Não tinha tempo de fazer arquivo, de fazer nada. Foi uma fase muito interessante e a minha verdadeira escola. E, além disso, tive o privilégio de pertencer a uma época na qual as oportunidades eram dadas a pessoas loucas como eu, que abracei uma nova profissão aos 30 anos de idade.
Na sua opinião, o que um fotógrafo precisa ter para ser um bom retratista?
Não tenho teorias. Mas tenho práticas. Primeiro, tem que gostar de gente. Fico muito mal-impressionada quando vejo fotógrafos tratarem pessoas como produtos, como objetos. O fotógrafo senta a pessoa, bota uma música alta e diz: "Linda! linda!". Não, não é assim. Mas é o que mais tem. Está cheio. Sou apaixonada pelo ser humano, pelo rosto, pela expressão, pelo olho. Acho que o ser humano é a grande empatia que tenho no meu trabalho. É o que mais me fascina. Se vou fotografar uma pessoa, não faço isso antes de entrevistá-la, e muita gente não entende. Não a fotografo sem antes conhecer um pouquinho, sem antes tomar um café com ela. Se eu não tiver um contato anterior, vou estar tratando-a como um objeto e ela é um ser humano. Vou estudar a pessoa, ver quais seus melhores ângulos. Para um fotógrafo ser um bom retratista, é preciso observar muito a pessoa e, obviamente, não falo aqui só da estética. Mas, com a conversa, tento tirar o que ela tem de alegria, de tristeza, ou mesmo projeções sobre aquele retrato, sua expectativa sobre o trabalho. Parece meio babaca isso. Mas não é. Fotografia é retrato da alma. Não sei o que acontece quando estou fotografando, porque eu falo muito, dirijo muito, especulo muito, provoco muito. Para cada um dos fotografados, você usa a sedução, a raiva, o ódio. Mas, principalmente, eu trato a pessoa como ser humano. Não tenho luz pronta. Faço a luz para ela. Tento valorizar o que acho que pode favorecer a pessoa. E nesse jogo, faço duas ou três iluminações, que acho que possa dar uma coisa de felicidade, de limpeza, de beleza. Às vezes, me dou o direito de fazer uma foto mais contrastada, porque eu gosto de uma luz mais expressionista.
Seus portraits são exclusivos P&B...
Acho que consigo ver cor em P&B. É uma coisa interessante. E quando vem o retrato cor, não é a minha cor, não é a cor que eu vejo. É a cor que a Kodak, que a Fuji vêem. No passado, quando eu fiz muita capa de disco, a minha felicidade era alterar, puxar o filme, distorcer. Era surreal, era pintura. Mas enfim, vamos aceitar as ondas do mercado. Para mim, fotografia é magia, é o filme, é pegar o contato, é pegar a lente e escolher, é esperar um dia, 48 horas para ver como ficou. Para mim, a fotografia tem ainda muito esse ritual da magia. Sou muito fora do padrão dos fotógrafos atuais. Sou tão fora de padrão, que sou de uma época que a palavra lobby era lobby de hotel. As festas e as reuniões de hoje perderam a graça por causa do tal do lobby. As pessoas vão às festas para distribuir cartões. Por isso, ficou tudo muito chato.
Como você traduz sua relação com a fotografia?
Meu exercício com a fotografia é de paixão, de mistério, de algo que salta aos sentidos. É um tipo de relação que, se eu fosse espírita, diria que é sobrenatural. Na hora de fotografar, baixa uma entidade fotógrafa. Mas eu acho que é também um pouco do desejo de uma geração de experimento. Talvez a não-escola, a coisa autodidata, a coisa de tentar compreender através da paixão, que faz a diferença. Eu me guio muito pela emoção, por aquilo que eu acredito que seja o melhor. Pode não estar dentro dos padrões fotográficos, completamente no foco, com os enquadramentos perfeitos. Mas é aquela foto que, para mim, fala mais. Isto me trouxe muitas discussões com diretores de arte. Imagina há 25 anos como era você tentar impor seu trabalho.
O que você fotografa hoje?
Faço essencialmente portraits. Mas também capas de livros, de discos. Talvez, este ano, eu trabalhe muito, porque faço belos retratos de políticos. Faço retratos de pessoas famosas, gente que quer ter um retrato dentro de casa. Gosto de fotografar famílias, crianças, velhos, bebês, mas vivo essencialmente de retrato.
Você citou capas de CDs. Como foi fazer a foto da Preta Gil nua para seu primeiro CD?
A foto se transformou numa sensação. Conheço a Preta desde a barriga da mãe dela, a Sandra, uma das pessoas mais interessantes que conheci quando comecei a fotografar. Como a conheço desde criança, sempre tive muita intimidade com ela. Mas, claro, que não teria sido tão interessante se ela não fosse extremamente liberal. Ela tem um espírito de índia. Andou de tal maneira relax, aqui no estúdio, e estava entre amigos como se tivesse tomando banho de sol na piscina da casa dela. Ela é superfotogênica. E a idéia do nu era de um nu romântico, inocente. Eu via Preta como uma criança. Uma forma mais antiga de ver a nudez. Aliás, é uma forma que eu gosto de olhar a nudez.
O que você pensa do padrão Playboy de fotografar?
No início da minha carreira, fui muito convidada para fazer a Playboy. E era uma época de censura. Acho estas fotos da Playboy um atentado ao pudor fotográfico. Quase tudo é mentira, tudo é retocado. Na época pensei: não vou gostar de fazer. Acho que o gostar de fazer acaba aparecendo no seu trabalho. As fotos saem tecnicamente perfeitas, mas sem nenhuma emoção, sem assinatura. Mas devo confessar que o único trabalho que eu fiz para a Playboy foi premiado. Foi um ensaio de uma mulher nua no meio do trânsito, no Metrô, no túnel Nove de Julho, no Minhocão. Foi um sucesso porque foi inovador e sem apelo erótico, o apelo era apenas fotográfico.
Você poderia falar sobre o seu novo livro, Palco Paulistano?
O teatro é a minha segunda paixão. Quero mostrar uma coisa que poucos fotógrafos gostam: erros, revelações que não deram certo. Quero mostrar como eu aprendi e cresci, a importância que o teatro tem culturalmente, não só para São Paulo, mas para mim. Quero mostrar atores que eu vi nascer, atores que nasceram grandes. Já tenho mais de 350 imagens selecionadas e digitalizadas. Tenho P&B e cor também. Fiz questão de fotografar palco e movimento porque também é o exercício de eu não ter controle. Alguém dirigiu aquilo para mim. Aquele gestual é dele. Tem uma estranheza do não-controle da situação que me fascina. Além de homenagear o teatro, que foi a segunda coisa que me fez aprender luz, eu tenho uma paixão muito grande por teatro, gosto de ir ao teatro e vou semanalmente ao teatro. Acho que o teatro é uma coisa sagrada. Já estudei para ser atriz, ser diretora. Sou muito curiosa sobre teatro. Como libertária que eu sou, este já é um exercício visual de momentos de liberdade alheia, que você não vê na rua, no cinema, no cotidiano, só vê no palco. A revelação descontrolada do ator me fascina. É um livro de espectadora. Porque sou mais espectadora do que fotógrafa. Estava ali documentando um momento mágico. Essas fotos de teatro me dão a noção do que a fotografia representa para mim, que é esse momento de magia. Gosto dessa liberdade que o palco oferece para o ator. Como espectadora, vou retratar momentos que me fascinaram dentro do teatro. Tem fotos de quando eu ainda era amadora, tem fotos de quando eu já era profissional, tem imagens que foram encomendadas, tem registros. Eu olhei quase mil filmes durante três meses. Tem cenas prontas muito bonitas.
Qual tipo de equipamento você usa?
Uso 35mm para quase tudo, que é a Nikon. Uso uma Pentax 6x4,5, que adoro. Uso 6x7 também. Para os retratos profissionais, prefiro a 6x4,5. Para portraits normais, com ampliações maiores, uso a 35mm. Meu 35mm é muito bom. Já consegui fazer até outdoor com ele. Acho que você, sabendo usar um bom filme, fazendo uma boa revelação e uma boa iluminação, consegue que o grão não estoure.
Quem você gostaria de fotografar que ainda não posou para suas lentes?
Oscar Niemeyer e Tomie Othake, que vou fotografar em breve. E também gostaria de ter fotografado Dom Hélder Câmara. Niemeyer e Tomie Othake são exemplos maiores de como podemos envelhecer e continuar produzindo e trabalhando. Quero morrer velhinha e com a câmera na mão.
Quais seus próximos projetos?
Em cada bolsa tenho um. Sou uma sonhadora incorrigível. Pretendo fazer uma exposição e um livro de 25 anos de carreira.
Entrevista publicada na revista Photo Magazine nr. 7 - abril/maio de 2006