Inicialmente, a revista trabalhava com a "ilustração de tesoura e cola", recortando fotos de outras publicações, especialmente estrangeiras. Posteriormente, com um fotógrafo próprio, Edgard Medina, no início dos anos 40. Na segunda metade dessa década, começou a formar uma equipe de profissionais, que se notabilizou por implantar no Brasil a primeira escola de fotojornalismo.
Onde havia notícia, lá estava um fotógrafo de O Cruzeiro: Eugenio Silva cavalgando com Guimarães Rosa pelos "grandes sertões, veredas"; José Medeiros internado durante um mês numa camarinha de iniciação de "iaôs" (filhas de santo), na Bahia, no que resultou o primeiro e único ensaio no gênero; Mário de Moraes entrevistando, num presídio mexicano, Jacques Monard, o assassino de Davinovitch Trotski, o revolucionário russo, ou Luciano Carneiro saltando de pára-quedas com as tropas americanas na guerra da Coréia, isto para dar apenas quatro exemplos. Nomear todos os grandes momentos da equipe da qual fiz parte, entre 1949 e 1959, seria impossível. Para "puxar a brasa para a minha sardinha", enumero a minha participação na cobertura da coroação da Rainha da Inglaterra, em 1953, e também a que fiz da explosão, na base de lançamento, do Vanguard, o primeiro foguete americano, em Cabo Canaveral, em 1957, depois de os russos já terem lançado no espaço o seu Sputnik com total sucesso. Hoje, o arquivo da extinta revista está sob a guarda do jornal O Estado de Minas, órgão dos Diários Associados onde, nós, fotógrafos, temos o direito legal do uso de imagens de nossas autorias.
Passando, no último mês de janeiro, por uma rua de Sevilha, na Espanha, saindo da maior catedral gótica do mundo, deparei com um prédio moderno, de três andares, onde está o Museo del Baile Flamenco. Como não posso ver museu de porta aberta, porque me dá sempre a irresistível tentação de entrar, entrei.
Tem esse lindo museu a mais moderna tecnologia para exibir o seu acervo da memória do mais característico baile espanhol, o Flamenco. Na verdade, a própria alma da Espanha. Durante a peregrinação – este é o termo que se deve dar à riqueza do conjunto de trajes, sapatos, instrumentos, registro sonoro e iconográfico –, observei a ausência de uma figura fundamental na história do baile flamenco, a figura de Carmen Amaya, esta a mais importante bailarina dos anos 40 e 50, que, entre outras façanhas, dançou para o presidente Roosevelt e para Winston Churchill.
Recebi a explicação de que pouco, ou nada, foi feito no registro da sua arte e que a mesma faleceu em 1963, ainda muito jovem. Informei ao guia que conheci a bailarina quando ela esteve no Rio de Janeiro, em maio de 1950, e que a fotografei dançando o Bolero de Ravel, bem como esclareci que levei para a artista, no dia seguinte ao trabalho, as cópias para ela selecionar 32 e dar às mesmas a ordem seqüencial – passo a passo –, enriquecendo e autenticando assim o meu trabalho.
Alertada, minutos depois, a diretora do museu me procurou: repeti a história que muito lhe surpreendeu e emocionou: prometi pesquisar o destino dos negativos operados há 57 anos.
Voltando ao Brasil, obtive da equipe do jornal mineiro, com total boa-vontade, as 36 imagens (quatro retratos e o restante da dança) que compuseram a reportagem intitulada Carmensita quiere casarse. As cenas que fotografei em formato 6x6, filme preto-e-branco, com iluminação de dois flashes, foram agora transferidas para um CD, em alta definição, que já enviei, sem custo algum, para o Museo del Baile Flamenco. E deste fotojornalismo que praticávamos resultou o ensaio que terá um espaço especial, a mim assegurado no MBF, pela sua diretora Tina Panadero. Basta o meu leitor ir à Sevilha, ver um lindo museu e conferir esse momento da fotografia brasileira a serviço da cultura universal. Eu fiz a minha parte.