Alex Villegas
"Você tem que ir para uma posição onde ele não pode fazer nada e você pode!" Ouvi essa outro dia, de um colega mais experiente no jiu-jitsu, e fez todo o sentido do mundo. Quem trata imagens sabe a briga que é. Então, a analogia não será de todo absurda. Mas antes tenho que explicar um conceito tornado famoso pelo gênio das imagens Dan Margulis, o conceito de "cor oposta" (unwanted color): cada objeto, se não for absolutamente neutro, tem uma cor predominante e uma cor oposta. Uma maçã verde, folhagens, tons de pele, roupas. E é exatamente essa cor oposta que contém a estrutura dos detalhes desse objeto.
Em RGB, o oposto de vermelho é uma combinação de verde e azul (que dá ciano), o oposto de verde é vermelho e azul (que dá magenta), o oposto de azul é uma combinação de vermelho e verde (que, por incrível que pareça, dá amarelo). No caso dessa maçã verde aí embaixo, os detalhes estarão distribuídos em uma fina estrutura, dividida entre os canais vermelho e azul.
É essa estrutura que constrói o detalhe de nossas imagens – e o contraste faz com que enxerguemos poros na pele das pessoas, ou as delicadas sombras que constroem a textura na casca das maçãs, fazendo que elas não pareçam bolas de sinuca com um cabinho em cima. E o contraste de uma imagem é parte cromático (diferenças entre as cores) e parte luminosidade (diferenças entre os tons da imagem).
Quando saturamos uma imagem, na verdade estamos aumentando a presença de uma cor e reduzindo a presença da cor oposta. A imagem fica mais viva, com as cores mais puras, mas o detalhe some muito mais rápido do que gostaríamos, porque parte dele está gravado ali, nos canais que contêm a cor oposta – e que estamos "sabotando" sem piedade. Mas, e aí, existe solução para esse problema? Não posso dar uma saturadinha nas minhas imagens sem perder tanto detalhe? Ora, é claro que pode. É só ir aonde o adversário não possa nos atingir. E levar a textura junto.
Como falei anteriormente, textura é construída a partir de contraste cromático e de luminosidade. O truque aqui é transferir algum contraste cromático – já que vou perder boa parte dele ao saturar – para a luminosidade, que não é afetada pela saturação. Assim, levamos nossos detalhes para uma zona segura.
Parece complicado né? Não é não – basta aplicar o conceito acima em um recurso muito interessante do Photoshop, que é o Apply Image. Esse comando é extremamente complexo e versátil, e aqui vou usar só uma das possibilidades dele, que é remanejar informação de um canal para uma camada. Há outros métodos mais avançados, mas, para começar, este é o mais didático.
No caso da maçã, a tonalidade principal dela é o verde. Então, os detalhes dela estarão na cor oposta, que é o magenta. Em RGB não existe canal magenta, mas essa cor é uma combinação de vermelho e azul, ou seja, vou procurar detalhe nos dois, usando a paleta Channels.
Achei! Tem detalhe aos montes nos dois canais, então, vamos fazer o remanejamento. Primeiro, na paleta Layers, crio duas camadas novas – Azul e Vermelho. Seleciono a camada Vermelho, depois clico no menu Image, depois em Apply Image. Agora é só aplicar a informação do canal vermelho, como está nesta caixa de diálogo:
O passo seguinte é fazer a mesma coisa com a camada Azul. Selecionar e aplicar a informação do canal azul. Veja acima.
Agora temos duas camadas com a informação dos canais que constroem a cor oposta. Precisamos integrá-las à informação de luminosidade, o que se faz simplesmente alterando seu modo de mesclagem (na paleta Layers) para Luminosity. Nesse modo de mesclagem, a informação da camada que estou aplicando vai afetar apenas a luminosidade, os tons da imagem, sem ter reflexo nenhum nas cores.
Olha! Perceba que o detalhe veio, mas a imagem ficou escura demais, e as maçãs parecem limões. Esse escurecimento vai ser uma constante nesse processo, e isso se deve ao fato de que o canal que guarda mais detalhe é exatamente o mais escuro, e não pode ser usado integralmente, sob pena de acabar com a luminosidade da imagem. Abaixando a opacidade da camada Azul para uns 10%, temos a imagem correta. Se achar necessário, pode abaixar a opacidade da camada Vermelho também. O resultado aparece logo no alto da página seguinte.
Vamos fazer um outro teste, desta vez com uma imagem de rosto. Pele é predominantemente vermelha, então os detalhes estarão escondidos na cor oposta. O oposto de vermelho é ciano, então vamos procurar a informação nos canais RGB que compõem o ciano – verde e azul. Reparem que neste caso (acima) também o azul é muito pesado, então há de se ter a mão leve na hora de aplicar essa informação.
O processo é o mesmo – criar uma camada Verde, uma camada Azul e usar o Apply Image para transferir a informação dos canais de cor para as camadas. Uma vez mudado o blending mode de ambas as camadas para Luminosity, ficamos assim:
Agora é só baixar a opacidade da camada Azul para uns 20% (ou não, caso queira um efeito à la Andrezj Dragan) e já temos detalhes evidenciados! Observe acima.
No caso de retratos, há uma outra possibilidade interessante: basta agrupar as duas camadas, Azul e Verde, em um layer set, adicionar uma máscara de camada ao layer set (clicando no ícone com a bolinha enquadrada na paleta Layers) e é possível usar essa máscara para suavizar ou remover os detalhes em áreas da pele onde não quero esse realce de textura.
Interessante, não? Divirta-se explorando o conceito de cor oposta, e nos vemos na próxima edição!