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6/11/2003

 
As taxas excluem
 
A polêmica em torno do pagamento de taxas, credenciamento e exigências por parte das igrejas

Nair Saes e André Teixeira

Em São Paulo, nas principais igrejas casamenteiras, o sistema de credenciamento existe na forma de um livreto. E os profissionais que dependem dessas instituições, mesmo que, de alguma forma, tenham contribuído para a sua implantação, não escondem a insatisfação mediante algumas regras que surgiram como conseqüência. As entrevistas registradas nesta reportagem formam o auto-retrato dos profissionais que, na maioria das vezes, têm a igreja como sua principal fonte de renda. Orivaldo Betoni, do Foto Azul, concorda que se deva pagar pelo uso de energia e uma série de coisas, mas é contra as altas taxas, a adoção do livreto e proibições. “Se você observar, em alguns livretos o profissional só tem um telefone celular, não deu nem o endereço e nem local onde trabalha. Não é justo com aqueles que estão estabelecidos, que pagam sindicato, imposto, aluguel, e uma série de coisas. Acho errado o cliente querer me contratar para fotografar em uma determinada igreja em que não sou credenciado, me proponho a pagar a taxa, mas sou proibido de trabalhar”. “É uma indústria de dinheiro. O casamento é uma coisa muito lucrativa e com a qual muita gente ganha dinheiro, fotógrafo, buffet, coral, segurança, manobrista, estacionamento”, argumenta um outro fotógrafo e empresário que achou por bem manter seu nome em sigilo para evitar represália. O empresário faz os cálculos: se cobrados 130 reais do fotógrafo mais 130 do coral, já são 260, mais 450 do decorador dá 710 reais, vezes 300 casamentos por ano, dá mais de 200 mil reais. “Hoje, o nosso trabalho gira em torno de 10% do que se cobra dos noivos. O que acontece é uma contribuição para inflacionar o mercado, porque é mais um custo que entra na planilha. O fotógrafo também reclama do recibo emitido pelas igrejas, que ao invés de discriminar pagamento referente à taxa de iluminação, que seria o correto, diz doação para as obras sociais da igreja. “Doação, você doa o quanto quer. Se fosse assim você poderia chegar e falar: vou doar 50 reais, mas não é 50, é 130 reais”. Valdomiro Tarsia reclama daqueles que rebaixam seu preço, e a taxa acaba pesando mesmo. Diz que “os responsáveis por tudo isso são as máfias que ficam atrás das sacristias. Uns forçam, e oferecem comissão para que a própria secretária sugira determinada empresa para executar o serviço. Dão cem dólares para a moça da igreja indicar. Tem pessoal aí, todo mundo sabe, que chega e compra um, compra outro, quer dizer, estão reclamando do quê? Se eles são os primeiros a banalizar a coisa, agora eles querem fazer o quê? O dólar vai subir, o preço do material vai subir. Tem fotógrafo aí que está com mais de 80 casamentos para entregar, mas não pode fazer porque não tem dinheiro para desenvolver o trabalho. Tem muito cara aí pendurado na praça. Não é o padre que está tomando o dinheiro dele, é ele que está roubando a ele mesmo, que está se sacaneando, porque está se desvalorizando. Para Sérgio Ribeiro de Paula, a taxa não contribui, mas também não atrapalha, porque, apesar de aumentar o custo, é repassada direto para o cliente. O credenciamento, porém, entra como vilão da história que, segundo o fotógrafo, pode se transformar em proibições que acarretam outros problemas. “A questão não é o pagamento, mas proibir o profissional de prestar serviço em tal igreja. A partir do momento que a igreja obriga a contratar determinados profissionais, ela acaba sendo co-responsável e isso ainda vai dar muitos problemas, inclusive judiciais”, alerta. Já Miguel Auro dos Anjos, da Brasil Vídeo, não vê nenhum problema com as proibições e diz também que a idéia das contribuições partiu dos próprios profissionais, inclusive se inclui entre eles. “Tem igreja que eu indico profissionais que vão entrar no livro. Nenhuma igreja até hoje falou: você tem que me pagar. Eles não forçam. Os profissionais que estão lá não são obrigados a pagar e não são obrigados a estar na igreja”. Quando se fala em taxa, Wanderlei Carmaneiro, do Foca Studio, não descarta o fato desse custo dentro do custo geral, hoje, se tornar muito inviável, mas, na contrabalança, cita o problema de receita das igrejas. “Não acho certo eu ou outro profissional pagar 300 reais para trabalhar, mas temos que entender que as igrejas estão com problemas de caixa”. Ele situa que o fotógrafo em todo esse universo representa a menor fatia da despesa do casamento, se comparado com o trabalho de decoração e outros. “Se o fotógrafo cobra dois mil reais por foto e vídeo, um decorador cobra sempre acima disso. O dinheiro de buffet nem se fala. Uma festa, dependendo do buffet, começa de 10 mil reais até 50 mil reais. Alguns buffets e algumas floriculturas mandam nas igrejas. Nós não, nós somos submissos às normas instituídas pela própria paróquia”. O fotógrafo Manuk Poladian, com 50 anos de profissão, é bem categórico: quem estiver reclamando das taxas é porque não está cobrando um preço justo e assim não está conseguindo incluir o custo como despesa em seu orçamento. “A igreja é um prédio, tem despesas e, além disso, desenvolve trabalhos sociais como distribuição de alimentos para pessoas carentes, mantém creches, entre outros. Manuk destaca ainda que a igreja é um espaço físico em que se desenvolve um trabalho profissional.“Na verdade, a taxa equivale a dois trabalhos, de foto e vídeo. Então, pensando bem, se o custo, por exemplo, for de 50 reais, ficaria 25 reais para cada uma das atividades”. Baixada Santista - José Eduardo Fernandes, do Prisma Studio, acredita que um dos maiores geradores de problemas está também na conduta do profissional, como por exemplo, na escolha do material e na valorização de seu trabalho. “Se eu fotografar um casamento, cada foto 24x30 sai por 30 reais, enquanto que outros, se cobrarem sete reais é muito”. E continua: “A mais cara 35 mm que já vi por aqui custa 2,5 mil reais, enquanto que a minha Hasselblad eu paguei 20 mil dólares”. O fotógrafo conta que os problemas vão mais além, e lembra da força violenta que os padres representam neste ramo. E compartilha da mesma opinião que Roberto Meira Alves, do Imagem Studio, que além de não crer na possibilidade de qualquer profissional retratar insatisfação em defesa da própria classe, pois está arriscado a sofrer proibições também, devido à desunião, entende que o credenciamento iria afastar os que usam a atividade como “bico” nos fins de semana. E, infalivelmente, o benefício se estenderia aos profissionais que representam uma empresa. Considera a classe uma fuga para o desempregado. Diz que em Santos está se tornando rotina uma pessoa perder o emprego e virar fotógrafo no dia seguinte. A posição das igrejas - “Isso é uma vergonha”. Esta é a afirmação do padre Ilson Frossard à frente da Igreja Nossa Senhora Mãe do Salvador, mais conhecida como Igreja da Cruz Torta, no Alto Pinheiros – SP. O pároco se opõe à cobrança de taxas abusivas e condena o fato de estar se tornando um ato meramente comercial. “Eu não cobro dos fotógrafos, porque eles não gastam nada a mais do que já cobrei da noiva. Se quiserem dar as cestas de alimentos, é uma contribuição espontânea. No final do ano eu costumo dar três, cinco, até dez mil cestas. São 200 mil reais que eu gasto. Para que cobrar mais? Religião não é comércio. Eu não cobro taxa. Eu gasto mais ou menos uns 15 mil por mês. Na coleta das missas aos domingos eu tiro oito mil, dos casamentos eu tiro de quatro a cinco mil, então já são treze, e depois, de dízimo eu tiro uns dois, já são os quinze. O folheto todo mundo cobra. Eu ganho de graça, e eu sou um homem que acredito no Evangelho. O que eu recebi de graça eu tenho que repassar de graça”. O padre condena a exclusão de profissionais e também é contra a exclusividade na igreja. “Se quisesse seria um homem muito rico. Porque na igreja têm muitos casamentos. Vem gente e diz: padre, por que o senhor não me deixa sozinho aqui e eu te dou, se tiver 40 casamentos por mês, 50 mil? Para ele é um ótimo negócio e se o padre não tem consciência, é materialista, é um ótimo negócio para ele também”. Na Igreja Nossa Senhora do Brasil, o clima esquenta quando se fala em taxa. Ao tentar conversar com o padre Nadir sobre o assunto, a resposta foi nada evasiva. Acusou-nos, de forma ríspida, de fazer parte do grupo anti-taxa. Falou ainda que este tipo de assunto não interessa à igreja, e nos aconselhou a escrever o que bem entendêssemos, desligando o telefone em seguida. NO RIO NÃO EXISTE TAXA - No Rio de Janeiro, a cobrança de qualquer tipo de taxa por parte das igrejas é como casamento sem brigas: não existe. Quem garante é um dos mais consagrados – e requisitados – fotógrafos do ramo: Egon Aszmann, um húngaro que, ao lado de dois irmãos e três filhos, comanda um estúdio que leva o nome da família. “Nunca paguei nada para fotografar nas igrejas”, garante. Não é um depoimento qualquer. Há mais de 30 anos envolvido com o que chama de “momentos únicos” – “as pessoas só se casam uma vez. Pelo menos dessa maneira, com uma grande festa”, acredita –, o sobrenome Aszmann assina os álbuns de casamento das mais tradicionais famílias cariocas, atuando em inúmeras igrejas por toda a cidade. “É uma média de 40 a 50 casamentos por mês”, diz Egon, que está com a agenda praticamente lotada até maio do ano que vem. Sobre a cobrança de “comissões” pelas igrejas paulistas, não resiste a um comentário. “São Paulo é uma cidade de negócios, bem mais do que o Rio. Talvez por isso as igrejas de lá tenham entrado nesse esquema profissional”, arrisca.


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