Cultura e olho pronto

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Foto: Flávio Damm

Quando nos deparamos com a afirmação de que “a fotografia em preto-e-branco é uma fatia de vida sem pose”‚ surge de imediato‚ e por tradição‚ a ideia oportuna de que um momento de vida foi perpetuado pelo uso de uma câmera analógica. Resultado de um ato pensado‚ diante de um momento que‚ para o fotógrafo‚ justificou o registro do encontro do “cotidiano com o surreal” de que nos falava ólvarez Bravo.

 

Por que ligar o fato à câmera analógica e não à digital? O tempo mental de fazer em P&B já vem pronto pela convivência do fotógrafo com a solução analógica. Operar em digital pode resultar na perda da foto‚ ao decidir pela opção alternativa de trocar o registro da câmera para fotografar em P&B. Quantas boas fotos foram perdidas pela decisão tomada em cima do ato mágico? Em compensação‚ quantas fotos foram aproveitadas pela facilidade oferecida pela câmera digital‚ mais rápida e com uma rica possibilidade de operar em sequência?

 

Se nos propusermos a avaliar as vantagens (ou desvantagens) de uma sobre a outra‚ ficaremos em estado de permanente discussão sobre o sexo dos anjos. Muito dependerá da experiência do fotógrafo‚ da sua melhor convivência com este ou aquele equipamento. Melhor partir para o que mais conta para o fotógrafo: a criatividade e o “olho pronto”‚ seja ele portador de analógica ou de digital‚ tanto faz.

 

Aliado a essa maturidade que permite nos apropriar de tudo o que vemos com ou sem câmera‚ deformação saborosa que nos faz ver tudo o que outros não enxergam‚ momentos de vida que a cada instante se armam e desarmam na nossa frente‚ encontro‚ no miolo de uma entrevista recente‚ o que pensa Walter Carvalho‚ diretor de fotografia de oito entre dez filmes brasileiros de melhor receptividade pelo público‚ parceiro constante de Walter Salles‚ João Salles e Júlio Bressane‚ e agora finalizando Budapeste‚ seu primeiro longa-metragem‚ baseado no “best-seller” de Chico Buarque. Ele fala de um momento em que seu filho o questionou sobre os segredos da fotografia. “Em vez de falar do diafragma‚ eu mostrava uma escola de pintura‚ escultura ou arquitetura”. Com o aprendizado vindo da arte‚ praticando fotografia‚ chegamos ao momento de fazê-la‚ como amador ou profissional. Estudando desenho industrial‚ Carvalho conta ainda que passou a gostar de fotografia e desde logo entendeu que ela não é para ser aprendida e‚ sim‚ praticada‚ procurada‚ indo ao seu encontro o fotógrafo‚ gerando o ato pretendido‚ esse namoro entre a procura e o achado acontecendo na ponta final a fotografia.

 

Antes de o processo fotográfico ter sido descoberto‚ no início do século 19‚ pela criatividade de Talbot‚ Daguerre‚ Niépce (e alguns anônimos)‚ os mestres da pintura como Michelangelo‚ Duccio‚ Fra Angélico‚ Simone Martini e Caravaggio e‚ muito mais tarde‚ os precursores da pintura impressionista Delacroix‚ Corot e Corbet‚ depois Manet‚ Monet‚ Pissarro e os “malditos” Gauguin‚ Van Gogh e Toulouse-Lautrec já haviam fixado‚ em suas obras‚ uma cultura de formas‚ luzes‚ composição e momentos que ficaram como clássicos a serem seguidos até hoje. Uma forma de ver que nos dá régua e compasso para tudo o que tem que ser criado‚ em pintura‚ arquitetura… e fotografia. Nesta‚ os melhores‚ como André Kertész‚ Cartier-Bresson‚ Manuel ólvarez Bravo‚ Boubat‚ Doisneau‚ Weston‚ Eugene Smith‚ Burri‚ Capa e Riboud nos legaram uma herança cultural que atravessará os tempos‚ quaisquer que sejam os progressos da tecnologia‚ sendo que prevale


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