No túnel do tempo
No começo do ano‚ fui convidado a participar do Floripa na Foto‚ festival de fotografia na bela capital catarinense‚ com uma palestra e‚ claro‚ projeção de fotos. Isso me obrigou a um trabalho que‚ mesmo cansativo‚ acabou se revelando prazeroso e até educativo: rever com atenção o material que produzi ao longo dos onze anos em que bato ponto no jornal – deixei de lado tudo que produzi antes e que não estava digitalizado‚ para facilitar a tarefa e não enlouquecer de vez.
Vale‚ antes de entrar realmente no tema‚ falar rapidamente sobre como essas fotos são arquivadas. O jornal trabalha com um programa chamado Digicol‚ em que podemos ver tudo que foi para as páginas‚ e tem backup de todos os negativos e tudo que os fotógrafos jogaram no sistema. Além disso‚ tento manter meu próprio arquivo‚ guardando‚ em CDs‚ DVDs e num HD externo‚ quase tudo que fotografo. Não é difícil imaginar‚ então‚ a quantidade de imagens que tinha para avaliar.
Tirando o susto que se leva ao constatar a profusão de matérias absolutamente sem importância histórica ou fotográfica – buracos na rua‚ personagens irrelevantes‚ supostas tendências ou modismos que não se concretizam e por aí vai –‚ analisar a evolução de seu trabalho é‚ além de divertido‚ muito útil para quem não quer ficar estagnado. Você vê‚ com clareza‚ os erros que cometeu‚ os macetes que usava para tentar resolver determinadas situações‚ vícios fotográficos que superou ou não. Passa a entender melhor o perfil de profissional em que se transformou. Além‚ claro‚ de relembrar sua trajetória‚ momentos felizes ou nem tanto‚ vitórias e derrotas.
Outra lição que essa verdadeira volta ao passado nos oferece é que precisamos‚ trabalhando num veículo de imprensa‚ ter um bocado de paciência e até humildade. Ver que tantas fotos que considerávamos boas foram mal aproveitadas ou sequer chegaram ao papel pode gerar um certo desânimo‚ mas a reação que precisamos ter é de disposição para‚ no dia seguinte‚ tentar de novo‚ continuar a produzir um material de qualidade para emplacá-lo nas páginas – objetivo final de nosso trabalho.
Apenas esse aprendizado já justificaria a trabalheira – e os custos – de manter seu arquivo fotográfico‚ mas há outras razões. Uma delas é ter‚ em casa‚ um pouco da história de nosso tempo. A cidade‚ as modificações‚ as novidades‚ prédios que surgiram ou desapareceram‚ o sistema de transporte‚ roupas‚ comportamentos‚ muita coisa pode ser relembrada‚ compreendida em flagrantes aparentemente banais. Outra razão‚ tão forte quanto‚ é que esse arquivo‚ se bem administrado e apresentado – e a Internet é uma ótima ferramenta para isso –‚ pode ser uma interessante fonte de renda. Estão aí os bancos de imagens‚ vendendo fotos que para muitos não teriam nenhum valor‚ que não me deixam mentir. Além de craques‚ como nosso Flávio Damm‚ que vira e mexe tiram da cartola uma exposição ou livro apenas revirando o baú.
Por essa e por outras‚ vai a dica: guardar as fotos‚ de preferência bem identificadas e com backup – lembre-se que não se pode confiar em apenas uma mídia para isso – é preservar um bom pedaço de sua história‚ além de ser um ótimo exercício fotográfico.











