Longe dos holofotes…

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Foto: æurea Silva

As estrelas do espetáculo ficam em destaque‚ sob os holofotes. Mas‚ longe deles‚ geralmente escondidos‚ fazendo o máximo para não aparecer ou incomodar‚ outros profissionais marcam presença. Entre eles‚ os fotógrafos. Shows‚ óperas‚ balés e outros eventos são uma boa fonte de renda para quem sabe explorar esse filão‚ seja trabalhando para grandes artistas ou produtores‚ seja registrando apresentações de pequenos candidatos a astro. É a chamada fotografia de palco‚ que tem entre seus representantes Áurea Silva‚ em Joinville‚ e Vânia Laranjeira‚ no Rio.

Formada em publicidade pela Universidade Federal do Espírito Santo‚ Áurea atua fortemente no mercado de escolas de balé‚ registrando não só as apresentações das pequenas “companhias”‚ mas também o cotidiano das bailarinas‚ seus aniversários e outras ocasiões importantes de suas famílias. A descoberta desse filão aconteceu há dez anos‚ quando acompanhava os primeiros passos da filha‚ Virgínia‚ na dança. Até então‚ seu trabalho era mais voltado ao atendimento de agências de publicidade‚ especialmente na área de varejo‚ além de livros‚ revistas de culinária e eventos corporativos de empresas. Nas aulas da filha‚ viu uma “oportunidade de levar o estúdio para dentro das escolas de bal&eacute”‚ conta.

“Visualizei uma forma de ganhar mais vendendo direto para os alunos‚ numa parceria com as escolas. Revolucionei o mercado”‚ garante. Essa estratégia‚ segundo ela‚ também é interessante para as escolas‚ que terceirizam a fotografia e formam um acervo de imagens que registram tanto a sua história quanto a dos alunos. “Vários pais me dizem que minhas fotos são as únicas que têm de seus filhos. Acabo fazendo parte da história dessas famílias”‚ orgulha-se.

Além de trabalhar nas apresentações de final de ano‚ Áurea agenda sessões de estúdio em cada escola. Num cenário que leva‚ fotografa as crianças com o figurino do espetáculo‚ reproduzindo as poses da coreografia. “Muitas vezes‚ mães aproveitam as datas e horários disponíveis e contratam fotos da família toda”‚ acrescenta – o que só reforça os ganhos‚ sem grandes investimentos extras.

Ela também fotografa os bastidores dos espetáculos‚ o que exige um trabalho de equipe e muita organização. “Por escola‚ temos em média 200 alunos‚ o que representa cerca de seis mil cliques. Isso gera um volume de trabalho enorme‚ pois temos que separar as fotos por criança e por coreografias”‚ diz. Para realizar a tarefa‚ costuma contratar um fotógrafo extra nos dias de espetáculo. “Temos a preocupação de fazer a cobertura total do palco‚ determinando o que cada um vai fazer‚ para que não haja momentos em que os dois fotografem a mesma coisa ou alguma cena não seja registrada”‚ explica.

Ela agenda pelo menos dois dias de venda nas escolas‚ quando os pais escolhem as fotos que querem adquirir. “Essa estratégia foi se aprimorando ao longo dos anos‚ e nos levou a investir cada vez mais em equipamentos para melhor o atendimento ao cliente. Antes vendíamos somente fotos avulsas 15x20cm‚ hoje oferecemos fotolivros personalizados‚ o que aumenta nossa lucratividade”‚ afirma. Ela evita se comprometer a fotografar um aluno específico‚ para não correr o risco de perder algum momento do show. “Sabemos que os pais gostam de fotos mais claras e exclusivas dos filhos‚ mas isso nem sempre é possível‚ até porque muitas vezes nem identificamos a criança no palco. Quando dá‚ até fazemos algumas individuais‚ mas não podemos nos esquecer do desenvolvimento do espetáculo”‚ analisa.

Paralelo ao trabalho de palco‚ a fotógrafa promove “estúdios itinerantes” por escolas‚ inclusive de outros estados‚ como São Paulo‚ Minas‚ Espírito Santo e Bahia. “O mundo da dança nos coloca em contato com um público maravilhoso‚ que nos dá trabalho o ano inteiro. Estou sempre com a agenda cheia‚ sendo muito bem recebida nas escolas. É o resultado de um trabalho feito com seriedade e compromisso”‚ comemora. Ela acredita que esse mercado ainda seja pouco explorado por exigir certa vivência e muita dedicação para aprender os mistérios da foto de espetáculo. “É preciso ter sensibilidade e muito treino para captar o momento certo da dança‚ com toda sua beleza”‚ ensina.

Treino no palco e nos bastidores é o que não falta para Vânia Laranjeira‚ que desde 1999 fotografa espetáculos‚ principalmente no imponente Teatro Municipal‚ no Rio. Sua trajetória à sombra dos holofotes começou quando‚ depois de passar por Jornal dos Sports e Globo‚ foi chamada para um frila na central técnica do Municipal. “Não planejei nada‚ as coisas foram acontecendo naturalmente. Fui fazendo trabalhos‚ as pessoas gostavam‚ me indicavam para outros‚ e assim fui ficando conhecida nesse filão”. Ela chegou a trabalhar como contratada do teatro‚ mas acabou saindo em 2002‚ numa das mudanças na administração da casa.

Atualmente‚ Vânia trabalha na Secretaria Municipal de Cultura – o que inclui a cobertura de eventos no próprio teatro – e atua como frila na área de eventos culturais‚ fotografando para a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Petrobras Sinfônica‚ além de várias produtoras de óperas‚ balés e shows. “Meu contato é com as produtoras‚ não diretamente com os artistas”‚ esclarece a fotógrafa. “Faço o registro dos bastidores e fotos para divulgação na imprensa‚ antes do espetáculo‚ além das próprias imagens do evento. Abasteço o arquivo interno dessas produtoras”‚ conta.

Esse mercado‚ segundo ela‚ não é muito concorrido‚ pois exige uma experiência que poucos profissionais conseguem adquirir. “Fotos de balé‚ por exemplo‚ são muito difíceis. A condição de luz geralmente é ruim‚ temos usar velocidade baixa e‚ ao mesmo tempo‚ congelar o movimento no instante exato. Só com muito treino se consegue”‚ acredita. Uma objetiva bem luminosa também ajuda. “A minha preferida é uma 200mm fixa‚ com abertura 2.8″‚ diz.

Há outras dificuldades‚ como as restrições de lugar e até de momento de fazer o clique. “Num dia de espetáculo‚ não podemos ficar andando de um lado para outro em busca do melhor ângulo. Além disso‚ o barulho da câmera incomoda o público‚ principalmente num recital de piano. Há concertos em que faço no máximo quinze fotos. O ideal é fazer o trabalho no ensaio geral‚ um dia antes da estreia. Já é uma apresentação completa‚ mas sem público‚ e assim podemos circular e fotografar à vontade”‚ comenta.

Vânia costuma basear o preço de seus trabalhos pela tabela do Sindicato dos Jornalistas. “O valor parte de R$ 600‚ aumentando de acordo com o tempo gasto. Numa ópera‚ por exemplo‚ para fazer todo o registro‚ leva-se até sete horas‚ e nesse caso o preço sobe”‚ ressalta. Ela faz uma média de quatro trabalhos “de palco” por mês‚ número que‚ admite‚ poderia ser maior. “Não estou correndo atrás de clientes como poderia‚ faço o que pinta”‚ confessa. Sinal de que ainda há espaço a ser conquistado nesse mercado.

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Foto: Vânia Laranjeira


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