Fotografia‚ invenção do diabo?!
Charles Beaudelaire‚ fotografado por Nadar em 1863 Foto: Divulgação
* Por: Prof. Dr.Enio Leite
De todas as manifestações artísticas‚ a fotografia foi a primeira a surgir dentro do sistema industrial. Seu nascimento só imaginável frente à possibilidade da reprodução. Pode-se afirmar que a fotografia não poderia existir como a conhecemos‚ sem o advento da indústria. Buscando atingir a todos. Por meio de novos produtos culturais‚ ela possibilitou a maior democratização do saber. A nova invenção veio para ficar. A Europa se viu aos poucos‚ substituída por sua imagem fotográfica. O mundo tornou-se‚ assim portátil e ilustrado.
O homem moderno diante desse novo cenário‚ não tinha mais tempo para ler. Tinha que ver para crer! Não podia mais contar com a lentidão e imperfeição das imagens produzidas artesanalmente por desenhistas e pintores de sua época. A sociedade europeia levou muito tempo para compreender o real valor da produção fotográfica.
Em 19 de agosto de 1839‚ a Academia Francesa mal anunciava publicamente a invenção do Daguerreótipo e o pintor Paul Delaroche já declarava enfaticamente: ”De hoje em diante‚ a pintura está morta”. Nos círculos mais conservadores e nos meios religiosos da sociedade‚ “a invenção foi chamada de blasfêmia‚ e Daguerre era condecorado com o título de “Idiota dos Idiotas”.
O pintor Ingres‚ ainda que utilizasse os daguerreótipos de Nadar para executar seus retratos‚ menosprezava a fotografia‚ como sendo apenas um produto industrial‚ e confidenciava:”a fotografia é melhor do que o desenho‚ mas não é preciso dizê-lo”.
Baudelaire‚ um dos mais expressivos representantes da cultura francesa‚ negava publicamente a fotografia como forma de expressão artística‚ alegando que “a fotografia não passaria de refúgio de todos os pintores frustrados” e‚ sarcasticamente‚ celebrava a fotografia “como uma arte absoluta‚ um Deus vingativo que realiza o desejo do povo… e Daguerre foi seu Messias… Uma loucura‚ um fanatismo se apoderou destes novos adoradores do sol!”. Com estas declarações‚ Baudelaire refletia o impacto causado pela fotografia na intelectualidade européia da época.
Um artigo publicado no jornal alemão Leipziger Stadtanzeiger‚ ainda na última semana de agosto de 1839‚ ajuda a compreender melhor este confronto: “Deus criou o homem à sua imagem e a máquina construída pelo homem não pode fixar a imagem de Deus. É impossível que Deus tenha abandonado seus princípios e permitido a um francês dar ao mundo uma invenção do Diabo” (Leipziger Stadtanzeiger 26/08/1839‚ p.1).
A nova concepção da realidade conturbou o mundo cultural e artístico europeu. Como entender que a fotografia viesse para ficar‚ a não ser em substituição das tradicionais formas de representação? Já se havia gasto vãs sutilezas em decidir se a fotografia era ou não arte‚ mas preliminarmente‚ ainda não se perguntara se essa descoberta não transformava a natureza geral da arte.
Numa época em que as artes plásticas‚ o teatro e a literatura passavam por uma série de mudanças com proclamações e manifestos de diferentes “ismos”‚ nasceram novas perspectivas na linguagem fotográfica. Influenciado em uma parte‚ pelas tomadas de posição‚ e em outra parte por estar a fotografia passando por um hiato‚ com a maioria dos profissionais se repetindo dentro dos mesmos moldes‚ sobretudo de ordem estética.
E‚ por outro lado‚ também para conquistar determinado prestígio social‚ já que a sua presença na época não era vista com bons olhos. Também outros fotógrafos não se conformavam em ver a fotografia “apenas como mero instrumento” para registrar a realidade. Como não se poderia obter os resultados desejados pela simples aplicação dos processos tradicionais‚ começam a se desenvolver‚ novas técnicas baseadas numa grande variedade de recursos‚ principalmente químicos‚ novas técnicas de enquadramento e iluminação.
A fotografia vai aos poucos perdendo seu poder de “cópia do real” para ser mais subjetiva‚ intimista‚ interpretativa‚ valorizando o discurso de seu próprio autor. As objetivas‚ por outro lado‚ foram reestudadas‚ com o intuito de se obter uma melhor qualidade de imagem e uma focalização mais suave. A fotografia trouxe consigo a aura da veracidade e seu surgimento contribuiu diretamente para que todos os segmentos artísticos‚ literários e intelectuais passassem por uma profunda reflexão‚ evidenciando um dado importante que até aquele momento permanecera intacto: “A concepção que o homem tinha de si próprio”.
*Prof. Dr. Enio Leite é coordenador da Focus Escola de Fotografia‚ em São Paulo.









