“Nenhuma fotografia vale mais que a tua própria vida”

Entrevista exclusiva com o fotojornalista chileno Francisco Negroni.

Quando Francisco Negroni observou pela primeira vez a imagem premiada de Kevin Carter, descobriu que seu futuro estava escrito: seria um fotojornalista para mostrar a realidade do Chile e aquilo “que ninguém quer ver”.

Depois de finalizar seus estudos em fotografia no Instituto Inca Caea de Viña del Mar, Negroni dedicou-se por completo ao fotojornalismo, colaborando e trabalhando para diferentes mídias nacionais e internacionais.

Um de seus trabalhos mais importantes reúne as imagens capturadas em junho de 2011, quando Negroni registrou cenas de uma tempestade elétrica durante a erupção do vulcão Puyehue-Cordón Caulle. Essas imagens percorreram o mundo.

Numa entrevista exclusiva, um dos fotojornalistas mais importantes de Chile fala sobre o início da sua carreira, seus trabalhos e opina sobre a situação do fotojornalismo atual no Chile.

O que impulsou você a seguir o caminho do fotojornalismo?

Eu decidi em me converter num fotojornalista depois de um fato pontual. Foi depois de ver a fotografia de Kevin Carter, fotojornalista que ganhou o Premio Pulitzer, em 1994, com uma incrível imagem de um menino quase morto e um abutre próximo a ele, como se estivesse aguardando a sua morte.

Encontrei a minha inspiração na obra de Carter, e foi dali que senti a necessidade de mostrar o meu país, em especial aquilo que muitos não queriam ver. Penso que esse é o chamado dos fotojornalistas. É o chamado para mostrar à sociedade a verdade e acordá-la do comodismo ao pegar o jornal e ver algo além do que as notícias econômicas e as ofertas do dia. Nós, os fotojornalistas, “somos os que observam o que ninguém quer ver”.

Um ano atrás, a foto da erupção do vulcão Puyehue-Cordón Caulle percorreu o mundo. Pode nos contar como você capturou essa imagem?

No dia 4 de junho de 2011, perto das 14 horas, começou a Erupção. Nessa hora, eu estava nas proximidades do lugar. Comecei trabalhar imediatamente e, na medida em que capturava as imagens, enviava para um dos meus principais clientes no Chile, a Agência Uno, que depois foi encarregada de distribuir várias dessas imagens para diferentes agências internacionais.

No final da tarde, ficou nublado e não era possível enxergar o vulcão. Só consegui cobrir as ações das forças armadas para tirar as famílias do lugar. Durante a noite, começaram as tempestades elétricas sobre a erupção, mas, como estava nublado, as fotografias não ficaram boas. Na noite seguinte, me posicionei num lugar alto, há vários quilômetros da erupção. O frio era intenso demais, mas sabia que teria só mais uma oportunidade. Ao começar a nova tormenta elétrica, resolvi fotografar com ISOs variados, velocidades mais baixas, alternando o diafragma. Até que consegui a exposição correta e capturei quatro boas imagens em uma noite escura, onde não se enxergava praticamente nada, somente a luz dos raios iluminava o ambiente. Não estava certo do que poderia conseguir. Era um tiro no escuro. Depois de ver os resultados na tela, ficava cada vez mais surpreso. Foi um momento mágico ver essas imagens pela primeira vez através da minha Nikon D300.

As primeiras foram enviadas de imediato enquanto tinha bateria no meu computador e meus dedos ainda conseguiam escrever as legendas por causa do frio intenso. Mas foi uma experiência incrível. Poucas horas depois, os relâmpagos cessaram e durante os vários dias que se seguiram esse fenômeno não aconteceu novamente. A imagem mais divulgada foi aquela que a Agência AP distribui.

Você acredita que a chegada das tecnologias que fomentaram a popularização da fotografia, como os telefones celulares, proporcionaram a “desvalorização” da imagem?

De alguma maneira, acho que sim. É algo que muitos colegas apoiam, mas também temos que ser autocríticos. Não podemos ficar sentados enquanto a tecnologia faz uma varredura de nós mesmos. Isso é como um trem em movimento: ou você entra nele e chega a um novo destino, ou você fica na plataforma apenas olhando como o futuro vai embora. Acredito que a tecnologia hoje é de todos. Se existe algum telefone celular que possa me ajudar no meu trabalho, vou compra-lo e não irei pensar que sou um turista a mais com um desses aparelhos, registrando imagens e dando de graça pelas redes sociais. Acredito que é necessário que o fotógrafo se adapte aos tempos novos.

Porém, considero que existe uma desvalorização da imagem na atualidade. Eu vejo isso nos meios de comunicação, principalmente onde a gente publica ou vende nosso trabalho. Cada vez pagam menos pelas imagens, porque argumentam que (através das redes sociais, principalmente) podem conseguir uma foto de graça ou por um custo muito baixo. Eles estão nos seus direitos, mas não podem esquecer que nós, fotógrafos, somos criadores de imagens, não simples tiradores de fotos. Por isso, duvido muito que algum dia acabe o trabalho para os fotojornalistas.

Pode-se perder muito em todo o âmbito, mas o amor pelos trabalhos de qualidade não. E é lá onde nós entramos, dando o real valor a nosso trabalho, um trabalho diferente, com uma perspectiva atual e uma busca infinita para conseguir uma imagem potente que reúna todas as condições que um editor requeira. O chamado agora é para melhorar, trabalhar bem e não deixar de lado as novas tecnologias. Muito pelo contrário, temos que utilizarem elas da melhor forma possível como uma ferramenta a mais para triunfar.

É possível ter liberdade criativa dentro das atuais pautas jornalísticas que impõem as mídias?

Acredito que é possível até certo ponto. Atualmente, existem casos onde já não são unicamente os editores fotográficos quem escolhem o material que será comprado ou publicado. Agora tem diretório onde participam jornalistas e até pessoas alheias à fotografia que também têm voz e voto. É lá onde se acha mais resistência para publicar um trabalho por considerar que pode estar vulnerando algum interesse particular, como pode se observar nos maiores jornais em relação aos seus grandes anunciantes e patrocinadores. Em alguns jornais “menores”, por exemplo, existem casos pontuais de editores mais liberais ou mais abertos às novas tendências (incluindo trabalhos mais artísticos), e é lá onde você encontrar bons lugares para oferecer material diferente e de alta qualidade.

Acredito que o profissional que tem mais liberdade de trabalho é o freelance ou independente, como eu, porque não dependemos de interesses dos grandes grupos econômicos ou interesses políticos, por exemplo. Para realizar nossas reportagens, acredito que devemos fazer o que nosso coração e consciência nos dizem. Essa é a grande paixão do fotógrafo: sua liberdade de expressão, segundo meu ponto de vista.

Qual é o segredo para manter a calma e realizar uma cobertura de qualidade quando o trabalho é dentro de cenários violentos?

Por sorte, o Chile é um país tranquilo onde os grandes conflitos sociais não são frequentes, mas quando acontecem são duros. Tem um caso em particular que é o Conflito Mapuche, conhecido internacionalmente, onde o Estado vulnera a liberdade dos aborígenes chilenos que ainda moram em localidades do sul do país. É quase uma guerra oculta que se mantem em lugares como Temucuicui e Ercilla, onde há desde disparos com armas de fogo, ataques incendiários, ocupação de prédios agrícolas e violência física contra mulheres e crianças de etnia Mapuche.

Fui lá muitas vezes para fazer a cobertura do conflito. Normalmente a gente não sabe o que realmente está acontecendo, mas algo é certo: os que levam a pior são os Mapuches (homens da terra). Eu retratei crianças e adultos com marcas de balas no corpo, mulheres com crianças nos braços que foram vítimas da repressão, pessoas feridas e levadas violentamente para os postos de detenção, etc. Para mim, é uma situação terrível de violação aos direitos humanos.

Para manter a calma lá e realizar uma cobertura de qualidade, muitas vezes é difícil. Eu sempre acho que não estou em risco, mas nunca se sabe se a gente voltará bem dessas coberturas. Isso faz que a gente trabalhe de uma maneira diferente. Eu sempre trabalho comprometido com meu serviço, mas nunca me esqueço do lema dos grandes fotojornalistas: “Nenhuma fotografia vale mais que a tua própria vida”.

Quais são as principais dificuldades que atravessa um fotojornalista no Chile?

O principal problema é a venda das imagens. O Chile é um país muito pequeno e há poucos veículos onde oferecer os trabalhos. Muitas vezes, isso obriga você a entrar a trabalhar contratado por algum meio de imprensa, uma opção válida para quem quer estabilidade, mas é algo que, definitivamente, atrapalha as aspirações de realizar projetos pessoais, pois absorve boa parte do tempo.

Outro assunto é o valor pago pelas fotografias. Se paga muito pouco por uma imagem ou uma reportagem. Tem que trabalhar duro e muito para reunir uma quantia suficiente de dinheiro no final do mês, o que me obriga a fazer outros tipos de trabalhos. Eu tento me desenvolver também na fotografia de turismo e corporativa, sem deixar de lado também a fotografia de natureza.

Por último, ainda há o custo dos equipamentos. Às vezes, tenho a impressão que somos o país onde a fotografia ainda é algo absolutamente exclusivo e chegar a ter um equipamento profissional de qualidade é um sonho. De fato, para mim ainda é.

Qual é seu objetivo mais imediato?

Seguir aprendendo a cada dia e nunca deixar de fazer isso. Eu tenho ainda muito a aprender.

Eu quero me converter num dos melhores fotógrafos do meu país e poder chegar até mais pessoas com o meu trabalho na América e o mundo. Mostrar as qualidades do meu país, suas riquezas naturais e até seus conflitos sociais.

Às vezes penso que, como as coisas estão se desenvolvendo neste vertiginoso mundo do descartável, o objetivo imediato é seguir ativo e poder continuar fazendo as minhas fotografias.

 

Fonte: Mirada Photos


Quer saber mais? Conheça mais sobre Francisco Negroni acessando o site: www.francisconegroni.cl ou www.flickr.com/photos/francisconegroni


 

 


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Uma resposta para “Nenhuma fotografia vale mais que a tua própria vida”

  1. Branco Melo 04/08/2012 em 9:05

    Muito boa a materia, define bem a situação dos profissionais da fotografia hoje.

    Responder

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