Belezas e problemas vistos do céu
Defensor da causa ambiental, Yann Arthus-Bertrand mostra a Terra do alto.
Um planeta repleto de belezas, mas em inegável processo de degradação. Esse é o implacável diagnóstico do projeto A Terra Vista do Céu, do francês Yann Arthus-Bertrand. Há 20 anos, inspirado pelo que viu durante a Rio 92, conferência no Rio de Janeiro em que se discutiram questões ambientais, ele começou a fotografar diversas regiões do mundo a bordo de helicópteros e balões, num trabalho que ganhou divulgação mundial e o transformou num ícone da luta pela preservação da natureza.
Nascido em 1946, Yann sempre foi um apaixonado pela natureza em geral e pelos animais em particular. Paixões que o levaram a assumir, aos 20 anos, a direção de uma reserva natural no centro da França, e, aos 30, a uma temporada de três anos no Quênia para um estudo sobre o comportamento de uma família de leões na reserva de Massai Mara. Uma câmera fotográfica passou a fazer parte de seu trabalho, ajudando-o no registro dos hábitos dos animais – “Os leões foram meus primeiros professores de fotografia”, brinca -, e se tornou ainda mais importante quando ele passou a trabalhar como piloto de balões.
Mais do que a possibilidade de ver do alto, de uma maneira mais ampla seus objetos de estudo, foi a descoberta de uma vocação: mostrar a beleza da Terra e seus recursos, e alertar para os riscos da ação do homem sobre ela. Aos poucos, passou a trabalhar para publicações como Life, Paris Match, National Geographic, Figaro Magazine e outras, se especializando nas questões ambientais. “Primeiro me interessei pela vida animal, a natureza; depois, pela humanidade”, declarou em entrevista de 2011.
Em 1991, fundou a Altitude, primeira agência fotográfica especializada em imagens aéreas do mundo. Na mesma época, partiu para a aventura pelo planeta, que resultou, em 1999, no livro A Terra Vista do Céu, que teve mais de três milhões de exemplares vendidos. Exibido também em grandes mostras ao ar livre, o projeto já foi visto por mais de 200 milhões de pessoas.
O trabalho, ele afirma a Photo Magazine, ajuda a criar uma percepção sobre o problema, mas não é o bastante. “Ajuda as pessoas a pensarem sobre isso, a perceberem as mudanças graves que estão acontecendo. Mas a realidade é que não temos muito tempo para pensar, não há tempo para ser otimista ou pessimista, é preciso agir. Estamos um pouco perdidos, sem saber o que fazer. As pequenas atitudes individuais, como fechar a torneira enquanto escovamos os dentes, são importantes, mas não são suficientes”, prega.
Ele busca fazer sua parte. Em 2005, criou a Fundação Good Planet, com o objetivo de sensibilizar o público para questões ambientais, implementar programas de compensação de carbono e combater, em parcerias com ONGs locais, o desmatamento. Dentro da Fundação, ele desenvolveu o projeto Seis Bilhões de Outros – mais tarde, com o crescimento da população, o seis virou sete -, em que pessoas de vários países respondem às mesmas perguntas sobre seus desejos, medos, vivências. Mais de 7 mil entrevistas já foram feitas, em 75 países.
Ele acredita no poder mobilizador desses depoimentos, e que essa mobilização, essa tomada de consciência do próximo, é um dos caminhos para a salvação da Terra. Para Yann, temos que rever nosso estilo de vida. “Queremos tirar do planeta mais do que ele pode nos dar, a população mundial é absurdamente grande, a Terra não está preparada para um crescimento cada vez maior. Há vários problemas pontuais, como o problema da pesca. Há lugares em que as populações sobrevivem da pesca e simplesmente não há mais peixe, então eles tem que mudar sua maneira de viver e começar a explorar outra coisa”, destaca.
Não é possível, segundo ele, apontar um país como o grande vilão do desequilíbrio ambiental. “É um problema global, da civilização, de nosso modo de vida”, reforça. Também não aponta o desenvolvimento econômico como a encarnação do mal. “A economia é importante. Este não é um problema que vai ser resolvido através de ações políticas. Vivemos numa democracia, então enquanto a população não tomar consciência, não há política pública que resolva questões ambientais”, analisa.
Com todo esse envolvimento com a causa, Yann pode ser considerado mais um ambientalista e ativista do que um fotógrafo. É, por exemplo, embaixador da Boa Vontade para o Programa Ambiental das Nações Unidas. Estará, nessa condição, na Rio+20, em junho, defendendo suas ideias. Sobre a conferência, alimenta a expectativa de que renda propostas e compromissos em benefício da natureza – e da própria sobrevivência do homem enquanto espécie -, mas ressalta que a solução está em cada um de nós. “Usamos a natureza para servir às necessidades dos seres humanos, e não é assim que as coisas devem funcionar. As pessoas estão mais conscientes sobre os problemas, mas falta perceberem que todos participamos, tomos somos a causa dos problemas”, conclui.
O artigo foi publicado originalmente na revista Photo Magazine #44.
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